Decisiva nas urnas, classe C quer Estado que funcione, diz pesquisador

A classe C, que forma a maioria da população brasileira (53%), não tem um consenso se deseja um Estado maior ou menor para a prestação de serviços, segundo avalia o pesquisador Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. “O que ela espera, em primeiro lugar, é que seja um Estado que funcione”, diz.
Meirelles, que lançou, nesta semana, o livro “Brasil da maioria: 25 anos da classe C”, ressalta que esse grupo da população quer um serviço público melhor e sem burocracia.
O pesquisador destaca que a classe C tem a maioria dos consumidores, dos trabalhadores urbanos, dos pequenos empreendedores, dos usuários de serviços públicos e dos eleitores. Essas vozes poderosas, em que pese a diversidade de perfis, sentiu, nas últimas três décadas, conquistas aceleradas em diferentes campos, mas viu essa velocidade reduzir. Por isso, segundo o pesquisador, esse grupo da população anseia por mais.
Em entrevista por telefone à Agência Brasil, o pesquisador detalha os principais impactos que o contexto econômico e social causou neste grupo.
De acordo com ele, a classe C ocupa hoje o centro das principais decisões econômicas, sociais e políticas do Brasil. Meirelles que o sonho do carro zero deu lugar ao investimento em pequenos negócios.
Confira abaixo os principais trechos da conversa.
Agência Brasil: O senhor poderia explicar como identificar quem está na classe C?
Renato Meirelles: Nós estamos falando de famílias que têm uma renda média de R$ 3,5 mil, somando-se o que ganha todo mundo que mora dentro de uma casa. Estamos falando de uma parcela da população brasileira que, nos últimos 25 anos, desde os processos de distribuição de renda, começaram a ser fundamentais para os destinos tanto da economia quanto da política no Brasil.
Agência Brasil: Trata-se de uma perspectiva diferente do que ocorre então, após anos 2000?
Renato Meirelles: Até o Plano Real (1994), a noção de longo prazo das pessoas era muito limitada. O fim do mês demorava uma eternidade. Não existia aplicação financeira melhor do que estocar o próprio alimento. Com o Plano Real, o brasileiro começou a entender que o longo prazo era um pouco maior do que o final de semana. Então, ele começou a ter sonhos e a se planejar.
Depois, com os processos de distribuição de renda, houve um ciclo virtuoso da economia, no qual a pessoa da classe D, beneficiário do Bolsa Família, passou a comprar mais porque tinha mais dinheiro. Comprava mais das pessoas, dos negócios que eram feitos por donos também da classe C. Que também passaram a comprar mais da indústria. Que, para atender ao aumento da demanda, contrataram mais gente, pagando salário de classe C.
Agência Brasil: Os sonhos de consumo estão acompanhados de desejos de melhoria de vida do ponto de vista educacional também? Quando a classe C passou a ser mais exigente também do ponto de vista de política pública?
Renato Meirelles: Eu acho que é essa a grande mudança. A gente teve o processo em que a classe C cresceu, ampliou o seu sonho e o seu horizonte. No consumo, era o sonho de viajar de avião pela primeira vez. Na educação, era de ter o primeiro universitário da família. E isso foi alimentando o crescimento da classe C, até 2010 e 2011.
Só que a economia parou de crescer na mesma velocidade. E começou a existir uma percepção da classe C de desaceleração das melhorias. A classe C crescia numa velocidade, crescia do ponto de vista de poder de compra, de acesso ao consumo. Ela caminhava para melhor qualidade de vida a 120 km/h. De repente, reduziu para 60 km/h. Se você está andando em alta velocidade e breca o carro, a sua sensação é que você parou de crescer e que está parado.
Agência Brasil: As classes A e B ficaram incomodadas?
Renato Meirelles: Sim. Muitas vezes, na minha carreira de pesquisador, eu ouvi a frase “O aeroporto virou uma rodoviária", ou “Onde já se viu empregada doméstica ter carteira assinada?”.
Em 2013, os sonhos começaram a se frustrar nesse processo de desaceleração. Isso tem a ver com a redução da velocidade do crescimento econômico. O poder de compra deixou de crescer na velocidade dos sonhos dessa classe C. E tem a ver com uma frustração que se deu também no universo do trabalho.
Agência Brasil: O que a classe C espera no campo do trabalho?
Renato Meirelles: Hoje, para a classe C, a dignidade é ser dona do próprio tempo. E é por isso que há ida para os aplicativos. O empreendedorismo, por outro lado, tem feito com que muitas pessoas não enxerguem na CLT ou no emprego formal algo que satisfaça todos os sonhos deles.
É verdade que, nesse processo todo, a CLT perdeu o valor. Nós tivemos reformas trabalhista e da Previdência. Aquela garantia que a CLT dava no passado deixou de ter a mesma importância. Não que essa pessoa não queira as garantias, mas ela não encontra essas mesmas garantias ou os mesmos direitos sociais que ela encontrasse ali dentro.
Agência Brasil: E agora, sob esse ponto de vista, o senhor acha que a classe C está mais vulnerável à desinformação, por exemplo?
Renato Meirelles: As réguas mudaram. Primeiro, o Brasil está vulnerável à desinformação, os algoritmos contribuem com isso e tudo mais. Mas o cálculo dessas pessoas é um pouco diferente do cálculo de quem pensa sobre essas pessoas.
Uma mãe de família que tinha que trabalhar para contribuir para os sustentos da casa pegava uma hora de ônibus para ir ao trabalho, e mais uma hora para voltar para o trabalho. E ela ganhava dois salários mínimos por mês. Aí veio a pandemia e o restaurante fechou. Ela pensou que ia perder o emprego. Só que ela começou a usar a habilidade dela de confeitaria para fazer um bolo.
Aí ela começou a sobreviver à pandemia graças ao que ela produzia na casa dela. Ela não tinha mais que passar pelo que passava. Hoje ela não quer voltar para o restaurante.
Ela sabe que essa autonomia sobre o tempo é fundamental para algo que ela sempre quis ter.
Agência Brasil: Os candidatos aos mais diversos cargos devem estar atentos, então, ao que essa maioria espera?
Renato Meirelles: A gente encontra uma classe C que está cansada, exausta da política tradicional, querendo alguma coisa diferente, mas sem saber exatamente o que é.
Agência Brasil: O que ela espera do Estado, na verdade?
Renato Meirelles: Ela espera, em primeiro lugar, que o Estado funcione. Enquanto a esquerda e a direita divergem se o Estado deve ser grande ou pequeno, ela quer um Estado que funcione, que efetivamente entregue uma qualidade de serviço público melhor.
Ela quer um Estado que não tenha burocracia. Quer um candidato que vire e fale: o Estado está aqui para te servir. Eu conto com você para que o Estado melhore.
Essa pessoa está acostumada a andar de aplicativo e dar uma nota para o serviço dela. Ou a comprar na internet e dar uma nota para a qualidade do produto que ela recebeu. Ela espera que o Estado preste conta e exista conexão de governantes e governados.
Fonte: Agência Brasil.


